sábado, 22 de outubro de 2016

Texto 7

O exercício consistia em criar uma cena onde o diálogo fosse banal e a situação inusitada, incomum, surpreendente.

(Sala de um necrotério, as paredes da direita e do centro tomadas por gavetas refrigeradas onde ficam os corpos; na da esquerda a porta de acesso, duas pias, um armário tipo fichário, e outro maior, utilizado para guardar os pertences pessoais das funcionárias e demais objetos. No meio da sala, duas mesas metálicas que são utilizadas para a preparação dos corpos, antes de serem levados ao velório. Duas mulheres na sala. Jurema, a mais velha, mais de cinquenta anos, está em pé ao lado de uma das mesas, preparando um corpo, passando uma esponja sobre o mesmo, como quando se banha uma pessoa acamada – a outra mesa está vazia – enquanto Paloma, jovem de vinte e seis anos, perambula pela sala, levando e trazendo utensílios usados por Jurema. Como numa cirurgia, a média e a assistente).

JUREMA, com a voz um pouco abafada por causa da máscara frente à boca: - Ela está grávida, eu tenho certeza!

PALOMA – Mas só porque ela engordou?

JUREMA – Ah, mulher sabe dessas coisas, ainda mais sendo minha filha! Gislaine tá ganhando peito, bunda, muito rápido! Tenho certeza que a danada fez besteira. Me ajuda aqui, segura essa perna.

PALOMA, colocando a máscara sobre a boca e segurando a perna direita do morto, quase num ângulo de noventa graus: - E o que ela disse quando você perguntou para ela? Negou?

JUREMA – Pior que eu ainda não perguntei...

PALOMA – Como não? Ai se eu desconfio que uma filha minha de quinze anos aprontou uma dessas eu não deixaria quieto...

JUREMA – Que filha, garota? Você não tem idade para ser mãe da Gislaine, não.

PALOMA – Você entendeu o que eu quis dizer, né Jurema? Posso baixar a perna?

JUREMA – Pode. Agora levanta a outra. O problema é que eu não sei como puxar esse assunto com ela sem o pai dela perceber. Se for mesmo verdade eu não quero nem ver o que o Gilberto vai fazer com essa menina...

PALOMA, segurando a perna esquerda na mesma posição da outra:
- Só que se for mesmo gravidez, não vai demorar muito tempo para ele perceber também né?

JUREMA para de passar a esponja e apoia as duas mãos na mesa, cabeça baixa:
- É, eu sei. Ai menina, estou num mato sem cachorro. E para ajudar tenho esse emprego com esses horários malucos. Isso era hora de uma mãe de família estar trabalhando? Desce a perna.

PALOMA, repousando a perna cuidadosamente sobre a mesa:
- Por isso eu acho que vou ficar para tia. Que homem vai querer namorar uma mulher que mexe com defunto, de madrugada? Passando a mão em gente pelada?

JUREMA, indo em direção à pia, retirando as luvas e a máscara da boca:
- Que jeito de falar, menina! “Passando a mão em gente pelada”. Quem ouve vai pensar que em vez de um necrotério isso aqui é a zona.

PALOMA, igualmente tirando as luvas e a máscara:
- Ai, tá bom, desculpe. Esqueço que você é toda séria.

JUREMA, sem se virar, ainda com a atenção na pia, lavando objetos:
- Não é uma questão de ser séria, mas de se dar ao respeito.

PALOMA – Ok, já entendi. Mas estamos só nós duas aqui, vai. E não deixa de ser verdade o que eu disse. Se bem que, no caso desse presunto aí, eu preferiria era passar a mão nele ainda vivo. Baita homem desse. Que desperdício...

JUREMA se vira bruscamente e levanta a voz: - Olha o respeito, menina! Que coisa mais horrível, falar assim de um falecido. Ele pode estar morto, mas certamente existem pessoas que estão sofrendo pela perda dele. Se não consegue respeitar o finado, ao menos tenha respeito pela família dele!

PALOMA – Nossa, Jurema. Que exagero. Já disse, só estamos nós duas aqui. Essa bronca eu mereceria se dissesse isso na frente de algum desses familiares, amigos, sei lá. Como você conseguiu ficar tantos anos nesse emprego, se importando tanto assim? Você leva para casa o sofrimento alheio, de pessoas que você nem sabe quem são?

JUREMA, abrindo o armário e retirando de dentro dele um terno, uma camisa, uma gravata, uma cueca, um par de meias e um par de sapatos, colocando-os na mesa vazia:
 – Eu não levo nada para casa, apenas acho desnecessário e desrespeitoso esse comportamento. Ainda que ele tenha sido um bandido, uma pessoa horrível em vida, não tenha família ou amigos para chorar a sua morte. Agora é entre ele e Deus. Nosso papel aqui e tratar o corpo dele com respeito e dar a ele um fim digno, independente do que ou quem ele tenha sido antes de chegar aqui. Se você quer manter esse emprego, melhor repensar suas atitudes e, principalmente, suas palavras.

PALOMA - Tudo bem, embora não concorde com você, pois eu acho que depois que morre o ser humano vira apenas matéria orgânica, comida de verme, ou do fogo que seja, me policiarei para não fazer mais comentários como esses perto de você. Já com relação ao emprego, agora eu preciso dele, mas garanto que não quero passar o resto da minha vida aqui.

JUREMA, desdobrando cuidadosamente as peças de roupa – Pois que assim seja. Enquanto eu for a responsável aqui, prefiro mesmo que se comporte da forma que eu acho correta. Quando eu não estiver mais aqui, ou quando você ganhar as contas, faça como quiser. Pouco me importa. Agora, coloque suas luvas e me ajude aqui.

PALOMA – Cueca? Para que cueca no corpo, se ele vai estar vestido?


JUREMA, colocando a máscara sobre a boca: - Não faça perguntas, apenas faça o que eu peço, sim?

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Texto 6

Esse texto saiu de um exercício de "texto dramático", onde não há a presença do narrador, apenas diálogos.

- Sente-se.

- Nossa, que séria.

- Pois é, a conversa vai ser séria mesmo. E eu vou ser direta. Eu sei por que você está fazendo tanta questão de reunir as duas famílias no natal, esse ano.

- Você fala de um jeito que parece até crime. Qual o problema em finalmente reunir nossas famílias na mesma festa?

- Ué, de repente teve amnésia? Já faz seis anos que nós alternamos as festas pois nem a sua, nem a minha família quer passar a noite de natal como convidados. Meus pais gostam de reunir os filhos e os netos na casa deles. Fazem muito de não implicarem comigo quando eu passo com a sua família, que não quer passar com a minha pelo mesmo motivo. Ah, Leonardo, sério mesmo que eu preciso explicar isso? Não, né? Que coisa.

- Sim, claro que eu sei, mas não custa tentar reunir todo mundo, eu acho. Vai ser a vida inteira assim? Ou lá ou cá? Mesmo quando a gente se casar? E quando vierem nossos filhos, vamos fazer como, cortar ao meio e dar metade para cada avó? Já sei, vamos torcer para virem gêmeos, assim a gente deixa um em cada casa. “Que coisa” digo eu, agora.

- Era justamente sobre isso que eu queria falar. Como eu disse, eu sei o porquê de você querer tanto essa festa com as duas famílias. Você vai me pedir em casamento durante a ceia, não vai?

- O quê?

- Não adianta, Leo. Larissa me contou tudo.

- Aquela vaca, linguaruda!

- Não fale assim da sua irmã. Não seja ridículo. Ela fez foi muito bem em me contar. Claro que ela pediu para que eu não a entregasse, prevendo essa sua reação patética, mas eu contei e você nem invente de pegar no pé dela. O problema agora é só entre nós.

- Problema, Bianca? Eu pedir você em casamento é um problema?

- Sim, dessa forma é.

- Que forma?

- Ou você é muito cínico ou muito egocêntrico.

- Ei! Que agressividade é essa?

- Ah, Leonardo, por favor! Você acha mesmo que não há problema algum em me colocar numa situação dessa? Aliás... Estou começando a achar que teve essa ideia justamente para me colocar numa posição difícil diante da minha e da sua família.

- Do que você está falando? Ficou maluca?

- Estou falando de você ter pensado em me pedir em casamento justo na noite de natal, com ambas famílias reunidas, pais, mães, irmãos, sobrinhos, todos, só para me colocar numa saia justa e eu me sentir coagida a aceitar. Claro! Imagino a avozinha toda comovida com você de joelhos me pedindo em casamento e eu recusando! Certamente eu ficaria como a bruxa da história. Você fez de caso pensado. Seu tratante.

- Meu Deus, Bianca! Que raiva toda é essa? E, espere um pouco, você recusaria? Ou melhor, vai recusar?

- Claro que sim!

- Mas por quê?! Não entendo! A gente se ama, estamos juntos há mais de cinco anos, nunca tivemos problema algum, sempre foi um namoro gostoso, inclusive nossos amigos sempre dizem que queriam ter uma relação sólida como a nossa! E agora vem você com essa. Assim, do nada!

- Não é do nada, não. Acontece que você alimenta essa ideia de casamento desde sei lá quando, talvez antes mesmo de me conhecer. Alguma vez você me perguntou o que eu pensava sobre isso?

- E precisava perguntar? Realmente, você nunca falou sobre casamento, mas também nunca se mostrou contra! E agora que eu também terminei a faculdade, é o próximo passo. Não?

- Aí é que está. Não é.

- Ah não?!

- Leo, me ouve. Tenho para mim que você alimenta essa vontade desde que se entendeu por homem, que percebeu o que é um relacionamento entre um casal. Provavelmente pela trajetória dos seus pais e até mesmo dos seus irmãos, você sempre quis o mesmo. Na sua cabeça existe uma ordem natural das coisas. Perde a virgindade. Formatura. Viagem para Porto Seguro. Faculdade. Cursa o que os pais escolheram ou segue a carreira do pai – o seu caso. Namora. Formatura. Assume o negócio da família. Noivado. Casa. Carro. Casamento. Gravidez. Enxoval em Miami. Filho. Casa na praia. Outro filho. Disney. Carro maior. Talvez um terceiro bebê. Comprar moto gigante para dar a volta no quarteirão no fim de semana. Talvez uma variação aqui ou ali, mas basicamente é esse o roteiro que você considera como o ideal para se sentir e, mais importante, se mostrar bem-sucedido para a sociedade. E aí, eu como a namorada, sou inserida nesse contexto, sem ao menos ser questionada. Você presumiu que eu tinha a mesma visão e pronto.

- Credo, Bianca. Eu acho que você deu uma exagerada. Eu pensei em fazer dessa forma por achar que iria ser romântico. Ok, você tem razão, eu nunca perguntei a você. Se bem que se perguntasse antes toda a magia do momento iria se perder.

- Pois então. Esse é o problema. Se tivesse perguntado, iria saber que eu não sou contra o casamento. Entretanto, eu acho que uma decisão dessa importância deve ser tomada em conjunto, não imposta. Tudo bem, existem pessoas por aí que matariam por uma situação como essa, serem pedidas em casamento como num conto de fadas. Só que eu nunca fui uma dessas pessoas. Aliás muito me espanta você não ter percebido isso.

- Pelo visto eu conheço menos você do que eu imaginava. Parece até outra pessoa. Engraçado que até então você nunca havia mostrado essa sua repulsa com relação ao romantismo.

- Você entendeu muito bem o que eu quis dizer, mas é claro que iria se portar dessa forma. Vai distorcer tudo o que eu disse e eu vou ficar como a vilã da história. Eu jamais fui contra o romantismo. Nosso namoro funcionou até aqui pois, mesmo eu sabendo desses seus planos de casamento, família, você nunca me pressionou. E eu gosto de você. O problema aqui é um só. É você ter decidido que o momento de ficarmos noivos é agora, sem saber o que eu penso, o que eu quero. É uma atitude egoísta e até mesmo ardilosa, me colocando numa sinuca de bico diante de todo mundo. Ainda bem que a Larissa se colocou no meu lugar e me avisou.

- E viva o Clube da Luluzinha!

- Ah, Leonardo, não seja cretino, por favor. Na verdade, a sua irmã fez um favor a você também. Sim, pois você estava tão certo de que eu iria aceitar seu pedido que nem cogitou como seria se eu dissesse não. Não foi? No constrangimento que seria para você, também, ter seu pedido recusado na frente de todos. Já imaginou a cara do seu pai? Pois então. Você tem mais é que agradecer à sua irmã.

- Tá, Bianca. E agora, como vai ser?

- Bom, embora você não tenha perguntado, assim como você eu também sempre tive meus planos pós formatura. Porém, eles são bem diferentes dos seus.

- E eu posso saber sobre eles? Aliás, você se formou há seis meses. Por que até agora não ouvi nada a respeito? Taí mais um motivo para achar que você queria a mesma coisa que eu.

- Eu não disse nada antes pois eu queria mesmo esperar até a sua formatura. Eu sabia que se dissesse algo antes você poderia até mesmo ter dificuldade em terminar sua monografia. Sei bem o quão difícil é o último semestre.

- Nossa. Que mistério. Confesso que estou ficando assustado com esses seus tais planos. Nem sei mais se quero saber quais são.

- Não há nada de assustador neles. Desde o segundo semestre eu comecei a juntar o dinheiro que seria para a formatura para poder usá-lo agora, depois de formada.

- Como assim? E a sua festa de formatura, quem pagou?

- Meu pai. Por mim eu nem participaria, no máximo como convidada de um dos meus amigos da sala. Só que quando eu disse ao meu pai ele fez questão de bancar, pois ele queria a festa. Única filha, valsa, colação de grau, roupas de gala, enfim, você conhece o velho.

- Então você aceitou o dinheiro dele. Quem diria.

- Acabei de explicar. Ele queria a festa. Foi mais por ele do que por mim. E qual o problema? Sim, eu sempre fiz o possível para me manter sem precisar dele e justamente por isso tive que escolher não participar da formatura, se quisesse ter dinheiro para o que pretendo fazer agora. Ele se ofereceu, eu aceitei. E fiz muito bem, pois a festa foi maravilhosa. Bom, você viu né, afinal estava lá.

- Tá, tá. Mas afinal, o que tanto você pretende fazer? Ainda não me disse.

- Eu pretendo, quero dizer, eu vou fazer uma viagem pelo Brasil. Especialmente pelo Nordeste. Se bem que com a grana que eu guardei, eu vou conseguir conhecer outras regiões e quem sabe até algum país vizinho. Quero ficar pelo menos uns três meses na estrada.

- Mas viajar, agora? Vai ser difícil para mim. Papai está doido para passar a empresa para eu comandar, não via a hora da minha formatura para se aposentar. Se eu disser a ele que vou fazer uma viagem, ainda mais de três meses, acho que ele surta. E outra coisa. Nordeste? Com esse dinheiro dá para conhecer vários países da Europa.

- Pronto. Lá vem. Além de todos os clichês, mais esse. Por que só Europa presta e seu próprio país não? Por que esse tom de desprezo quando disse “Nordeste”?

- Ah Bianca, não vai querer dizer agora que a Europa é feia e não vale a viagem?

- Eu jamais disse e jamais direi isso. Eu sonho em conhecer muitos lugares da Europa. E irei conhece-los. O que me incomoda é esse pensamento de que viajar pelo próprio país “não dá status”, por isso não vale nada. E antes de viajar para o exterior eu acho no mínimo mais sensato viajar pelo meu próprio país. Não me vejo indo para, sei lá, Grécia sem antes ter conhecido as praias nordestinas. O Brasil é tão vasto, tão diverso, com tantos atrativos, que não dá para não querer conhecer tudo. Mas... agora me dei conta. Como assim “vai ser difícil” para você? Acha que vamos juntos?

- Ué, não vamos? Como assim?! Você pensou em viajar sem mim? Com quem você vai viajar? Só falta me dizer que com a Larissa!

- Não, não é com ela. Nem com você. Eu vou sozinha.

- Sozinha?

- É, sozinha. Mesmo antes de saber dessa maluquice de pedido de casamento eu já havia decidido. Eu vou viajar sozinha.

- Mas Bianca, meu Deus! Então além de recusar meu pedido de casamento, vai terminar nosso namoro?! Então por que ficou comigo esse tempo todo? Fui um idiota útil?

- Não é nada disso, Leo. Eu gosto de você. Nosso namoro foi muito bom, fiquei com você por gostar de você, da gente juntos. E foi dando certo durante a faculdade pois nossas cabeças estavam focadas no mesmo objetivo, o fim do curso. Só que eu sabia que era só uma questão de tempo. Eu sabia que você não aceitaria fazer uma viagem desse tipo comigo. Eu sabia que você iria começar a pensar em casamento. Só que foi mais rápido do que eu imaginei. A minha intenção era conversar com você, depois dessa bagunça toda de fim de ano. Uma conversa só nossa, adulta. Mas aí você resolveu atropelar tudo que não teve outro jeito.

- Olha, eu confesso que nem sei mais o que dizer. Já vi que está decidida. Existe alguma coisa que eu possa fazer para que você mude de ideia?

- Não, Leo. Não existe.

- Sendo assim, melhor eu ir embora. Nem quero ver quando contar para meus pais. Eles adoram você.

- Sim, eu sei e também gosto muito deles. Gosto de toda a sua família, sempre me acolheram muito bem. E Leo, por favor, não vá infernizar a vida da Larissa, ok? Ela não fez por mal. Pelo contrário, fez pelo nosso bem.

- Que seja. Bom, se mudar de ideia, sei lá, sabe onde me encontrar.

- Sim, eu sei. Mas a gente não precisa se afastar por causa disso. Podemos continuar...

- Bianca, por favor, não. Não me peça isso. Uma coisa é eu ter que respeitar sua decisão, por mais absurda que eu a considere. Mas não pense que vamos virar melhores amigos. Para mim não vai ser simples assim. São mais de cinco anos juntos. Cinco anos de convivência, de amor, de carinho, de intimidade, de confiança e confidências. Cinco anos de planos, ainda que só da minha parte. Não dá para transformar tudo isso em passado assim, de uma hora para outra. Preciso de um tempo. Faça uma boa viagem. Espero que nada de ruim aconteça com você nessa sua aventura maluca. Viajar sozinha... E vamos deixar o tempo passar. Como diz a vó, “o futuro a Deus pertence”.

- Sim... Bom, então acho que é isso, não?

- É. Pelo menos por agora, é isso.

- Tudo bem então. Mande lembranças à sua família. Gostaria de poder me despedir deles pessoalmente, mas algo me diz que não vai ser uma boa ideia.

- De forma alguma. Só peço que me deixe contar para eles antes. Depois você pode ir visita-los, claro. Tenho certeza que isso não mudará o afeto que sentem por você. Sou eu que preciso de um espaço, de um tempo para digerir tudo isso. Bom, melhor eu ir agora.

- Ok, Leo. Também vou. Obrigado por tudo. Do fundo do coração. E espero que um dia entenda minha decisão.

- É, eu também espero poder entender tudo isso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Texto 5

O motivo de eu ter ficado algumas semanas sem postar foi a falta de material mesmo. Começamos a estudar, no curso, a escrita teatral, as peças, desde Grécia antiga até contemporânea. Posso dizer que é a "área" com a qual eu menos me identifiquei. Simplesmente não sai nada. Cada exercício foi um parto e mesmo assim ficou horrível. Vou postar esse mais para não ficar tanto tempo sem nada por aqui. Espero que no último módulo do curso as coisas melhorem.
Bom, o exercício consistia em escrever um "diálogo ausente". Trata-se de uma conversa onde o leitor/espectador tem acesso a apenas um lado da conversa, tendo que imaginar, supor o outro. Um exemplo bem fácil para esse tipo de diálogo é uma conversa ao telefone. Você não ouve o que está sendo dito do outro lado da linha, mas pelas palavras e reações do personagem que você lê/assiste, é capaz de supor o que está sendo dito do outro lado. Às vezes isso pode ser usado num personagem que esteja delirando, por exemplo, falando consigo em voz alta. Eu usei um outro método, o de apenas suprimir as falas do outro interlocutor, o que só funciona mesmo na leitura, pois não seria possível esse texto numa encenação, já que claramente a outra pessoa está fisicamente presente no mesmo ambiente do personagem que fala. Eu disse que escrever para teatro não vai ser nunca a minha praia... Eis o (curto) texto:



"Entre, por favor. Fique à vontade.

Aceita um café, água?

Gelada ou natural?

Aqui está. Sente-se.

Confesso que sua mensagem me surpreendeu.

Porque não imaginei que fosse saber de você tão cedo.

Imagina, não teria motivos para não receber você. Embora não tenhamos terminado nos melhores termos, não é para tanto.

Estou bem, tudo indo na paz. E com você?

Que bom.

Ah sim, mas para quem não está difícil hoje em dia, não é? Mas enfim, você não me disse exatamente sobre o que quer conversar comigo.

Ah, você sabe que eu não gosto de rodeios.

Sim, eu também não gosto de conversas virtuais. Por isso estamos aqui agora.

Bom, se você diz... O que posso dizer é que para mim não só foi difícil, mas também surpreendente. Levar um pé na bunda de repente do jeito que foi, não é nada agradável.

Aí já uma questão de semântica. Se você prefere outra expressão, fique à vontade. Eu fico com ‘pé na bunda’ mesmo.

Se eu estivesse com raiva você não entraria mais na minha casa. Só que nem por isso eu vou fazer de conta que as coisas que aconteceram não aconteceram. Você disse que queria falar comigo. Embora eu imaginasse que fosse isso, resolvi pagar para ver. Vai que você tinha a intenção de se desculpar, pelo menos.

Percebo que continua a mesma pessoa. A culpa é de ambos? De onde você tirou isso?

Era só você ter me dito isso. Só que eu sei e você também sabe que isso não é verdade.

Acredite naquilo que te deixa com a consciência tranquila, só que eu não vou aceitar que você venha na minha casa e diga na minha cara que você pulou a cerca por que eu estava “diferente”. Ao menos tenha a decência de assumir.

Ah, tenha dó. Você vai mesmo me dizer que a carne é fraca?

O que eu já entendi é que você é uma pessoa covarde, mimada, egocêntrica e escrota. Aposto que pensou que eu iria ficar correndo atrás de você, implorando por uma reconciliação. Quando viu que eu liguei o foda-se, ficou com o ego ferido e me procurou. Tentando reverter o jogo e fazer com que eu sinta a culpa. Perdeu tempo.

Se eu estou com outra pessoa, isso é problema meu e dessa eventual outra pessoa. Não existe nenhuma razão para eu dar satisfações da minha vida a você.

Pelo visto vai continuar com esse cinismo. “Nossa história”. Aliás, agora é só isso mesmo, história. Eu honestamente achei que pudéssemos ter o mínimo de convivência respeitosa, mas vejo que não será possível. E agora vou pedir para você ir embora. Não tenho mais nada para lhe dizer e ainda que você tenha, confesso que não quero ouvir.

Descer com você? Não precisa. Só chamar o elevador, apertar o zero até o térreo e sair por onde entrou. Caso o porteiro não esteja lá, interfone que eu abro o portão por aqui.

Ótimo. E por favor, nunca mais me procure. Espero nunca mais saber de você e desse seu ego tóxico. Vocês não são mais bem-vindos aqui. Passar bem."




domingo, 4 de setembro de 2016

Textos 3 e 4

     Na última aula foram propostos dois exercícios. No primeiro teríamos que usar o que o professor chama de "contraste", ou seja, criar uma atmosfera a partir da descrição do cenário para, ao longo do texto, mostrar os personagens com sentimentos opostos ao que o ambiente sugeria, numa tentativa de surpreender o leitor. Já no segundo exercício, a tarefa era criar uma narrativa apenas a partir do cenário, sem o uso de personagens, fazer o leitor descobrir, conforme lê, os fatos que aconteceram ou vão acontecer naquele ambiente. Por conta disso, de serem dois exercícios, saíram dois textos mais curtos que os anteriores, entretanto isso não quer dizer que o esforço tenha sido menor. Pelo contrário... Sendo assim, seguem os textos:


Texto 3 - O cemitério

     Por ser o primeiro cemitério construído na cidade, o Jardim de Caronte abrigava os restos mortais das famílias mais tradicionais, as tidas como fundadoras da vila que originou o município de Nova Atenas e, por isso, possuía mausoléus imensos, tumbas maiores que os barracos dos moradores da favela Beira Rio. Túmulos em mármore, imagens religiosas em tamanho natural, até mesmo uma cripta sob a igreja, onde estava enterrado o primeiro padre a celebrar uma missa na então Vila de Atenas, tudo isso compunha o visual do local. Entretanto, ao longo dos anos, as novas gerações das tais famílias tradicionais foram abandonando essa prática peculiar de ostentar as suas posses em um cemitério e, por consequência, os outrora imponentes jazigos se transformaram em construções decrépitas, muitas delas tomadas pelo mato, por ervas daninhas, raízes de árvores fazendo seu caminho por sob as sepulturas, derrubando um azulejo aqui, outro ali, pinturas há muito sem renovação, emprestando ao Jardim de Caronte uma atmosfera ainda mais lúgubre, tétrica, macabra. Era como se todas, ou pelo menos a maioria das famílias que possuíam algum antepassado ali enterrado, tivessem decidido ao mesmo tempo não mais dedicar tempo e dinheiro à manutenção dos túmulos.


     Foi nesse ambiente que, numa tarde abafada de uma quinta-feira de setembro, Augusto, Laércio e Rui se reencontravam, conforme haviam combinado há alguns meses. Estavam ali para visitar a última morada de Francisco, o amigo que haviam perdido para um infarto fulminante; naquele dia, se vivo estivesse, ele completaria cinquenta anos.

     - Aqui Chicão. Conforme a gente tinha combinado, as cervejas. – Rui colocava sobre a lápide uma caixa térmica cheia de latinhas e gelo.

     - A gente bem que preferia um boteco, mas você resolveu levar a sério aquele papo de morrer jovem... – disse Laércio, já puxando o anel metálico, fazendo o barulho característico.

     - Pois é. Se eu não conhecesse esse tratante desde os meus quinze anos poderia dizer que morreu só para não ter que pagar a conta hoje. – completou Augusto, repetindo o gesto de Laércio e propondo um brinde.

     - Saúde! – propôs Laércio.

     - Eu acho que você deveria ter dito isso para o Chicão alguns meses atrás... HAHAHA! – gargalhou Rui, seguido pelos dois amigos.

     - Cara – prosseguiu Laércio – se alguém me dissesse que um dia eu estaria em um cemitério, bebendo cerveja em cima do túmulo de um amigo meu, era bem capaz de eu me zangar e até partir para ignorância. No entanto, cá estamos nós.

     - Isso é verdade, mas vocês lembram bem como o Chico encarava esse lance de morte. – disse Augusto, antes de sorver outro gole generoso. – Ele vivia dizendo que iria morrer cedo, que tinha pavor de ficar na mesma situação do pai dele. Eu nunca o julguei por causa disso, embora pense diferente...

     - Mas sabe que eu não só o entendia como passei a pensar da mesma forma? – revelou Laércio, recebendo os olhares arregalados dos amigos.
     
     “É verdade. Eu acho que a gente tem que querer viver enquanto é possível justamente isso, viver. Não que eu queira morrer cedo, desde que eu chegue aos cem anos lúcido, independente. Claro que terei muitas limitações próprias da idade, mas que seja possível eu me sentir vivo. Não acho que seja válido uma existência que não seja vida, mas apenas uma prolongação de dor e sofrimento”.

     - A gente viu de perto o que o Chicão passou com o pai dele. Não dá para culpá-lo por pensar como pensava. – contemporizou Rui. – Se querem saber, não viemos aqui para questionar as falas e convicções do nosso amigo. Viemos para cumprir o que prometemos uns aos outros, de estarmos todos juntos quando um de nós completar cinquenta anos. E mesmo não sendo essa a situação ideal, tampouco o local apropriado – nunca havia notado como esse lugar é macabro, Jesus! – não estou triste. Se Chicão está nos vendo agora, deve estar até com os olhos marejados, aquele manteiga derretida.

     - É Rui, você tem razão. – concordou Augusto. – Se um dia nos tornamos amigos foi por nos aceitarmos como somos, sempre respeitando a forma de cada um pensar. Também concordo que o local é o último onde eu achei que um dia fosse tomar uma cerveja, mas se foi assim que as coisas se apresentaram, pois que assim seja. Mais uma latinha?


 Texto 4 - A sala de jantar

     Era uma sala de jantar grande, espaçosa, de um tamanho difícil de encontrar nas construções atuais. Ainda era possível notar que o teto era branco, embora a fuligem tivesse tomado quase toda sua superfície. Nas paredes, os resquícios do papel que outrora as cobriam denunciavam uma preferência pelo dono da casa por tons pasteis, o que causava um contraste ainda maior com o negrume deixado pelo fogo. Não era preciso ser um especialista para notar que o fogo se alastrou da lareira situada ao fundo da sala, no lado oposto ao da porta de acesso, a qual possuía duas folhas, das quais só restavam as dobradiças chamuscadas. Era visível o rastro negro vindo do local que antes abrigava a borralha, porém era difícil precisar o que serviu de combustível para o inflamável alcançar o resto do ambiente.

     A imponente mesa de jantar, juntamente com as doze cadeiras que a acompanhavam, cinco em cada lateral e mais duas em cada ponta, talvez por ser construída com a chamada “madeira de lei”, não estava tão destruída como alguém pudesse imaginar, dada a força das chamas que consumiram aquele ambiente. Já o encosto e assento estofados haviam se tornado uma mera lembrança, provavelmente registrada em algum retrato perdido no tempo e em algum canto daquela mansão.

     O cheiro de queimado era forte, assim como o calor naquele cômodo, ainda que o chão, as paredes e os poucos móveis e objetos que resistiram, total ou parcialmente, ao fogo estivessem encharcados. Havia água, inclusive, pingando do teto, numa amostra da difícil, porém vitoriosa, batalha travada contra as chamas.

     No piso, além da fuligem, a água se misturava a cacos de vidro que um dia protegiam o mostrador e o pêndulo do relógio carrilhão que ornamentava a lateral da sala, bem ao lado da porta de serviço que dava acesso à cozinha, a qual, quando ainda existia, era usada quase que exclusivamente pela criadagem. Era provável que os estilhaços de copos, pratos, jarros e outros recipientes também estivessem em meio aquele lodo, mas agora era possível apenas imaginar.

     Embora apenas testemunhas pudessem acontecer o que de fato acontecera ali, um observador mais atento poderia fazer algumas deduções, graças a alguns objetos encontrados, os quais definitivamente não faziam parte da decoração daquela sala de jantar tão imponente. Coincidência ou não, mas um pé de sapato de salto que conseguiu se safar do fogo e mantinha sua cor vermelha, uma armação de óculos com hastes bem finas, cujas lentes provavelmente haviam se misturado aos cacos do carrilhão, um pedaço que lembrava couro e por certo um dia serviu como capa para um livro considerado sagrado para um determinado grupo de pessoas, se encontravam, todos esses objetos, próximos à porta principal do cômodo, como que abandonados sem que seus possuidores se preocupassem em tê-los de volta.
     
     Finalmente, defronte à lareira, como que ocupando o lugar na ponta da mesa, de forma que seu ocupante tivesse em seu campo de visão a porta que um dia possuía duas folhas e, ao mesmo tempo, pudesse apenas ouvir o crepitar das chamas ardendo às suas costas, estava a estrutura metálica, o que também se poderia chamar de carcaça de uma cadeira de rodas.

domingo, 28 de agosto de 2016

Texto 2 - O túnel

           O exercício dessa semana era fazer um texto que fosse bem diferente do anterior. Se naquele eu busquei descrever relações humanas, reflexões, deixando a ação de lado, neste eu precisei fazer o oposto. Aqui pouco importa a personalidade dos personagens, mas onde eles estão e o que fazem, como agem e reagem nas situações.
        A formatação está meio estranha pois eu digitei tudo no word e depois colei aqui, então os parágrafos ficaram desalinhados -  e eu não sei arrumar.
       Lembrando sempre que tratam-se de exercícios, de prática. Outras pessoas talvez guardem seus textos apenas para si, com medo de julgamentos ou de expor erros, falhas, pouca técnica. Pra mim é o contrário. Quero me expor para justamente ter a chance de outros olhos perceberem o que não está bom e me ajudarem a melhorar. Assim como tudo na vida, só melhoramos aquilo que praticamos. Por isso eis-me aqui. 

O TÚNEL
           
         A Ilha do Chapéu tinha esse nome pois, quando vista de cima, se assemelhava bastante com esse adorno outrora tão popular entre os homens. Ao centro, morros e montanhas se aglomeravam, enquanto que ao seu redor, em toda a circunferência da ilha, sua orla era plana, não havia um ponto onde o mar se encontrasse diretamente com a rocha, era apenas areia, formando uma praia única que circundava todo seu território, característica que formava a “aba” do chapéu.
        Apesar de famosa, a Ilha do Chapéu não era de fácil acesso, sendo possível alcança-la apenas pagando para algum pescador pela travessia, o que não ficava barato, dada a distância com relação ao continente, ou tirar a sorte grande de ser aprovado pela Marinha e ir de carona em uma das embarcações oficiais que seguiam semanalmente à ilha, para a troca do efetivo.
       Embora os oficiais da Marinha não fossem os únicos habitantes – havia também algumas vilas de pescadores espalhadas pelo território – a ilha não era um destino turístico, pois não possuía tal estrutura, além de se tratar de área de preservação e de pesquisas. Entretanto, alguns poucos cidadãos conseguiam autorização para visita-la, desde que arcassem com os custos das chamadas taxas de preservação ambiental, bem como do pouso em alguma das casas dos pescadores, os quais ofereciam os quintais como terreno de camping. Durante um bom tempo o acesso era restrito aos moradores, soldados e pesquisadores, mas o atual governador do Estado, sob a alegação de que se trata de propriedade do povo, determinou a abertura ao acesso dos demais cidadãos, desde que cumprissem com as inúmeras exigências para a obtenção do que popularmente era chamado de “Visto do Chapéu”. Porém, esporadicamente, a obtenção dessa permissão era facilitada, a pedido do governador, justamente para passar a impressão de um local democrático, do povo.
            Foi numa dessas brechas de benevolência que Bruno, Ana, Pedro e Taís conseguiram a tal permissão e se organizaram para conhecer a ilha. A iniciativa da viagem e toda a parte burocrática ficou a cargo de Bruno, a quem também coube convencer a namorada, Ana, a participar da aventura. Incentivado pela irmã, Pedro decidiu aproveitar os dias de folga que tinha disponíveis e decidiu acompanhar o casal, levando consigo Taís, sua “amiga colorida”, para usar a expressão com a qual eles mesmos definiam sua relação.
            Bruno tinha essa atração por destinos de natureza. Já havia estado em diversas partes do mundo, sempre procurando a praia perfeita, o sol perfeito (como se houvesse mais de um), o verde perfeito. Tendo conhecido do Caribe às Maldivas, passando pelo sul asiático e pelo icônico Havaí, o biólogo nascido nos rincões do Nordeste – cujas praias ele conhecia mais do que as tartarugas que ali desovam – sabia que não teria sossego enquanto não conhecesse aquele pedaço de solo brasileiro tão famoso e, ao mesmo tempo, tão desconhecido.
            Aos primeiros raios de sol, Bruno já sentiu a adrenalina em finalmente poder explorar, ainda que uma pequena parte, daquela ilha tão misteriosa. Contrariando as expectativas, a travessia do dia anterior havia sido incrivelmente tranquila, até mesmo tediosa. Os comprimidos e sacos plásticos trazidos para uso em caso de indisposição dos passageiros viraram peso morto. Nenhuma onda gigante, nenhum vento assustador, nenhum sacolejo mais forte. Nada. Foi como se estivessem navegando com motores desligados sobre um rio de águas calmas.
            O fato de ter conseguido uma autorização para uma estadia curta na ilha fez com que Bruno montasse um roteiro minucioso, ordenando as ações do dia de modo que ele pudesse explorar todos os pontos possíveis, levando em conta que tudo teria que ser feito a pé, com pouco equipamento, uma vez que eles não estavam autorizados a pernoitar em outro ponto que não o camping/quintal da família de pescadores que os hospedava. Isso o deixava um pouco irritado, uma vez que gastaria muito do seu pouco tempo disponível nos retornos ao camping, quando poderia dormir no meio de uma trilha e seguir viagem no dia seguinte.
            Bruno também não estava muito satisfeito com seus companheiros de viagem. Por ele, havia ido sozinho, mas não viu uma forma de dispensar sua namorada e seu cunhado, preferiu evitar futuros aborrecimentos e até mesmo um abalo maior em seu relacionamento, que já não vinha muito bem das pernas. Julgava que a presença de pessoas que não tinham o mesmo objetivo que ele naquela viagem o atrasasse, diminuísse ainda mais o pouco tempo disponível que ele tinha para aquela exploração. Além disso, ele sabia que só havia conseguido a tal autorização para acessar a ilha graças à influência de Taís, filha de um oficial já reformado, porém figura muito respeitada junto à Marinha. Por certo preferia não ter que depender de favores alheios, mas ou era assim, ou não era. Pois então que fosse.
            Naquele dia, o primeiro, Bruno havia decidido que iria em busca da Cachoeira do Sol. Segundo as versões passadas adiante pelo boca a boca, ela teria recebido esse nome pois graças à sua localização peculiar a luz solar atinge suas águas durante todo o dia; não havendo nuvens no céu, há sol refletindo de forma ininterrupta em suas águas, as quais imediatamente após a queda formam um lago cristalino, onde é possível banhar-se durante todo o dia sem sentir frio e, ainda, observando arco-íris permanentes que se formam ao redor.
            Na noite anterior Bruno havia sido taxativo, sairia para a trilha no horário marcado, sem tolerar atrasos. Caso alguém resolvesse ficar na barraca, ele não insistiria para que fizessem de outra forma – no fundo desejava que os três assim o fizessem – seguiria sozinho e depois mostraria as fotos. Porém, para sua surpresa, todos estavam a postos no momento combinado, igualmente ansiosos para desbravar os arredores.
            Como a ilha não era um ponto turístico, não havia sinalização nas trilhas, a orientação ficava a cargo da bússola e do solo pisado que desenhava o caminho adiante. Bruno até tentou encontrar mapas na internet, nos poucos fóruns onde encontrou tópicos sobre a ilha e até mesmo em páginas da Marinha, mas não teve sucesso. Os raros comentários que encontrou diziam a mesma coisa: leve bússola, nunca saia da trilha e fique atento ao relógio, pois ficar no meio da mata sem a luz do sol não é aconselhável. Desnecessário dizer que não há sinal de celular, sendo que a única forma de contato com o continente é através do rádio existente na base da Marinha. Sinalizadores não são permitidos na ilha, para evitar danos aos animais e até mesmo incêndio. Inclusive – e isso é algo que eles só descobriram após conseguirem a autorização para acessar a ilha – os visitantes precisam assinar um termo de responsabilidade, ficando cientes de que não há na Ilha do Chapéu uma estrutura de salvamento, não há equipe de resgate, tampouco hospitais ou qualquer tipo de estrutura para emergências. O pouco de assistência que há é direcionada aos oficiais e aos moradores.
            Depois de uma hora caminhando sem nenhum imprevisto ou reclamação dos demais integrantes daquele quarteto, Bruno notou ao lado direito da trilha por onde seguiam, uma pequena clareira que se seguia por uma outra trilha, mais íngreme, dessa vez bem mais estreita. Naquele período do ano, por conta das chuvas constantes, as árvores estavam frondosas, em franco crescimento, o que tornava a mata fechada, com visibilidade limitada; ainda que houvesse a trilha, não era possível avistar o caminho adiante, era preciso segui-lo e ir descobrindo aos poucos.      Sem hesitar, Bruno tomou o rumo dessa nova trilha.
            - Ei, mas você disse que o aconselhável era seguir a trilha sem se desviar. Mudou de ideia? – protestou Pedro.
            - É, amor, essa trilha na qual estamos é mais ampla. Essa outra parece que não é usada há muito tempo. Tem certeza? – questionou Ana.
            - Sim, é uma trilha menor – disse Bruno – mas não deixa de ser uma trilha. Além disso, reparem, ela é mais íngreme, logo vamos chegar mais rápido a algum ponto mais elevado. E cachoeiras ficam nos pontos mais altos, certo? E outra, existe a chance de termos uma visão mais ampla da ilha, caso encontremos uma clareira maior lá em cima. Eu vou subir. Vocês vêm?
            - Ai, Pê, será? – titubeou Taís
            - Não sei Tatá. Se bem que, embora seja mais estreita, ainda é uma trilha, não tem como a gente se perder. Desde que a gente não se embrenhe na mata fechada, mantenha sempre uma referência como caminho, não deve dar problema. E faz sentido o que o Bruno disse, com relação a chegar mais rápido no topo. – ponderou Pedro.
            - Bom, nós já caminhamos por uma hora, devemos estar de volta ainda com o dia claro, ou seja, no máximo às seis da tarde. Proponho que sigamos em frente por mais cinco horas, no máximo. Daí, ao meio-dia, damos meia volta e retornamos pelo mesmo caminho, independente do que encontrarmos, pois com outras seis horas caminhando estaremos de volta no acampamento. Fechado?  - propôs Bruno.
            Ante a concordância de todos, seguiram em frente.
            Depois de quase duas horas subindo por aquele caminho sem qualquer novidade, sem sequer visualizar algum animal, exótico ou não, na companhia apenas uns dos outros e de árvores, árvores e mais árvores, uma mudança na paisagem finalmente se apresentou. O cansaço – causado mais pelo tédio do que pelo esforço – desapareceu assim que Bruno percebeu que a subida estava no fim, que em mais alguns passos eles iriam atingir solo plano, mais uma clareira, dessa vez bem maior que a primeira.
            Assim que a subida terminou, eles se surpreenderem com o que viram. Trilhos de trem.
            Estático, Bruno tenta entender a presença daqueles trilhos ali, no meio daquela mata fechada, àquela altitude, naquela ilha tão isolada. Demora para dizer alguma coisa.
            - Mas gente – Taís quebrou o silêncio – como assim? Digo, trem, aqui? Para onde vai? De onde vem? Mas tem estação nesse lugar? Será que a gente caiu em algum portal e não percebeu? Estamos no futuro e a humanidade já pereceu, igual ao Planeta dos Macacos?
            - Embora eu não ache que seja algo do gênero, Tatá – prosseguiu Pedro – eu também não consigo entender o que uma estrada de ferro está fazendo num lugar como esse...
           - Bruno? – perguntou Ana – Amor? Você tem alguma ideia?
           - Não, nenhuma ideia – disse Bruno, como que saindo de um transe.
            - Talvez – prosseguiu o biólogo – isso tenha sido usado como transporte de materiais de construção, ou equipamentos, pois podem existir outras bases da Marinha na ilha, talvez desativadas. Na verdade eu estou chutando, não faço ideia do que seja isso.
            - Bom, seja lá o que for, pelo menos deu um gás novo a essa nossa caminhada – disse Pedro – temos pela frente quanto ainda, umas três horas antes de voltarmos? Podemos seguir esses trilhos e ver onde chegamos. Pelo menos o caminho não perderemos, pois eles serão nossa referência pare retornarmos.
            - Isso é verdade. Mas Bruno, e agora? Para que lado? Esquerda ou direita? – indagou Taís.
            - Esquerda – Bruno foi categórico – Reparem que do lado esquerdo os trilhos seguem acima. É quase imperceptível, mas com atenção percebe-se que desse lado nós continuaremos subindo.
            - Então, vamos logo antes que tenhamos que dar meia-volta. – pediu Ana.
            Não muito tempo depois de seguirem pela esquerda, os dois casais chegaram a algo ainda mais surpreendente do que os trilhos: um túnel. Não era uma caverna, uma fenda na rocha por onde convenientemente os trilhos passavam, mas uma abertura feita pelas mãos do homem. Impossível não concluir que realmente, em algum momento da história, aquele local foi de intensa atividade humana, embora igualmente impossível determinar os motivos de uma estrutura feito aquela em local tão remoto.
            Por alguns minutos os quatro ficaram defronte à entrada do túnel, o qual era grande o suficiente para permitir a passagem de um trem cargueiro, tentando decidir se entrariam ou não no mesmo – embora ainda não tivessem verbalizado tal pensamento, era só nisso que pensavam.
            - Bom, como temos duas lanternas, creio que seja suficiente para entrarmos, ainda que por alguns metros – propôs Bruno.
            - Na verdade – Pedro interrompeu – temos uma lanterna só. A minha eu deixei na barraca, já que a ideia era voltar ainda com a luz do dia. Pensei em salvar a bateria para a noite...
          - Calma, amor, pois eu e Tatá trouxemos nossos celulares – interveio Ana. Aliás, não trouxeram os seus, para tirar fotos? Podemos usar as lanternas deles. Claro que não é mesma coisa, mas ajuda, eu acho...
            - Sim, claro – suspirou Bruno – na verdade não sei como eu não deixei a minha lá também, afinal quem iria imaginar que encontraríamos um túnel no meio da Ilha do Chapéu?
            - Olha só – disse Taís, apreensiva – se vamos entrar, temos que tomar cuidado. Não dá para saber o tamanho desse túnel, pois não dá para ver nenhuma luz do outro lado ainda. Além da escuridão, tem os trilhos e os dormentes, que vão dificultar nossa caminhada e mais ainda, a pior parte, vai saber que tipo de bicho existe aí dentro.
            - Engraçado que, agora que você disse isso eu me dei conta de que não vimos animal algum pelo caminho. Coisa mais estranha, um lugar como esse, quase mata virgem, sem animais? Bruno, você que é biólogo, pensa o que a respeito? – perguntou Pedro.
            - Realmente, eu notei isso também. Só que eu não faço ideia, nunca vi nada parecido, nem na prática nem na teoria, nunca estudei nada assim, nem sei que nome se dá a esse fenômeno. Bom, mas embora eu esteja intrigado com isso, não é agora que eu vou descobrir. E, se pensarmos pelo lado positivo, se no meio dessa mata exuberante não existem animais, acho difícil alguma criatura dentro desse túnel escuro e sem vida – no sentido literal e figurado da expressão.
            Assim, Bruno sacou sua lanterna da mochila, seguido por Ana, Tais e Pedro, cada um munido com seus respectivos celulares, com as luzes dos flashes fazendo as vezes de farolete.
            Como percebeu Taís, o túnel era muito escuro, impossível determinar sua extensão, pois não existia qualquer iluminação que não fosse a das lanternas ou aquela que vinha por onde entraram. Além de escuro, apresentava uma umidade elevada; era possível ouvir em alguns pontos o barulho de gotas caindo em poças, fato que enchia Bruno de esperança de estarem perto da Cachoeira do Sol, ou ao menos de algum outro fluxo ou reservatório de água, uma vez que não chovia.
            Já haviam avançado o suficiente para não mais enxergarem a entrada. A iluminação que tinham provinha apenas de forma artificial. Até então, todos em silêncio, a não ser pelas exclamações quando um ou outro tropeçava nos trilhos. Andavam todos juntos, Bruno direcionando o facho de luz à frente do grupo, também iluminando o chão, enquanto os demais clareavam, ainda que parcamente, o teto e as paredes conforme avançavam.
            Subitamente, Ana para de se mover, segurando Bruno pelo braço.
            - Vocês ouviram? - sussurrou Ana.
            - Eu ouvi também! Pareceu uma respiração, um grunhido. Ai gente, vamos voltar agora! – exclamou Taís         
            - Tatá – disse Pedro, puxando Taís para perto de si, pelo braço – agora não é hora de perder a calma. Sim, eu também ouvi. Seja lá o que for, está vivo e pode não gostar de barulho. Vamos sair daqui sim, mas sem desespero. Se corrermos podemos cair nesses trilhos. Bruno, Ana, vamos agora.
            - Desliguem as luzes – ordenou Pedro.
            - Você tá louco? – espantou-se Ana – Bruno, pelo amor de Deus, vamos embora daqui!
            - Apaguem! – insistiu Bruno – as luzes podem guiar o que quer que seja que fez esse barulho em nossa direção. Desliguem as lanternas e vamos tentar caminhar de volta no escuro um pouco. E em silêncio!
            Todos obedeceram e, instintivamente, colocaram-se um de costas pro outro, na tentativa de se protegerem de qualquer coisa que os atacassem pelas costas. Em seguida, começaram a caminhar, ainda naquela formação circular, na direção que acreditavam ser o retorno para a entrada do túnel.
            - Assim não vai dar certo, não vamos avançar todos enroscados desse jeito. Vamos nos soltar, cada um pega a sua lanterna. Ligamos todas ao mesmo tempo e corremos pela lateral dos trilhos, assim evitamos os dormentes. Eu não sei o que foi aquilo e não quero saber o que é. Vamos fazer como disse, ok? – murmurou Pedro, tentando não chamar a atenção daquilo que nem ele sabia o que era.
            Então, ao sinal de Pedro, os quatro se afastaram um dos outros e procuraram suas lanternas.
            Pedro ouviu, dessa vez muito próximo, o mesmo barulho de minutos atrás. Era o som de uma respiração ofegante, gutural, reconhecia como algo humano, embora também percebesse uma espécie de líquido sendo aspirado e expirado, como saliva em grande quantidade.
            Assim que ouviu o mesmo som que Pedro, Taís sentiu o ar se movimentar ao seu lado, como se algo tivesse passado voando bem perto da sua cabeça. Deu um grito, ao mesmo tempo que apontou a lanterna do celular para a direção onde deveria estar Pedro.
            - Pedro! Ah meu Deus! Gente, cadê o Pedro!
            Nervosa, ao tentar ligar a lanterna do seu telefone, Ana deixou o aparelho escorregar de suas mãos e percebeu, pelos ouvidos, que ele caiu numa poça d’água. Duas fontes de luz a menos.
            Bruno apontou a lanterna para a mesma direção em que Taís e teve uma visão que desejaria nunca ter tido.
            Uma criatura humanoide, com mais de dois metros de altura, de compleição física forte, estraçalhava com os dentes o pescoço de Pedro, que jazia inerte nas mãos daquela figura monstruosa.
            - Vamos embora daqui agora! Ana, me dê sua mão! Taís, venha e não olhe para trás!
            - Pedro!! Meu Deus do céu! Bruno! Ana, o seu irmão! Precisamos salvá-lo!
            - Não há mais o que fazer, Taís! Temos que deixar o Pedro! Sim, ele é meu irmão, mas é tarde demais! Temos que escapar agora antes que esse demônio venha atrás de gente! – gritou Ana, puxando Taís pela manga da blusa.
            - Agora não é hora de pensar em nada a não ser sair daqui. Ana, por favor, me dê a sua mão, agora! Vamos! Taís, Pedro morreu, você precisa correr!
            O monstro soltou um urro apavorante e voltou sua cabeça em direção ao trio. Ainda com a lanterna apontada na direção da criatura, Bruno percebeu quando o facho de luz atingiu a besta nos olhos e esta os protegeu com as mãos.
            - Ele deve viver aqui nessa escuridão há tanto tempo que está muito sensível à luz. Vocês duas vão seguindo com a ajuda do celular e eu vou logo atrás, atrasando esse monstro com a lanterna! Talvez assim ganhemos tempos até chegarmos a entrada do túnel. Vão!
            Ana tomou o celular das mãos de Taís e ambas saíram em disparada, tentando não tropeçar nos trilhos.
            - Pela lateral! Corram pela lateral do trilho para não pisarem nos dormentes!
            A criatura parecia faminta, pois mesmo irritada com a luz em seu rosto, continuava a arrancar pedaços do corpo de Pedro.
            Com o coração em disparada, a adrenalina preenchendo suas veias, Bruno começou a correr logo atrás das garotas, em dúvida se deveria olhar para trás e checar se o demônio já os perseguia ou se olhava para o chão, a fim de evitar uma queda.
            Subitamente, novo urro. Bruno sabia que o monstro estava os perseguindo, conseguia sentir aquela respiração pavorosa se cada vez mais perto, assim como as passadas cada vez mais aceleradas sobre as pedras entre os dormentes.
            - Não olhe para trás, Ana! Continuem a correr, eu estou logo atrás de vocês!
            Bruno sentiu aquela aberração muito próxima, sabia que seria capturado. Então parou de correr se virou, apontando mais uma vez o facho de luz para os olhos do monstro. Após levar as mãos monstruosas em frente aos olhos, a criatura deu dois passos para trás e, na sequência, ainda com as mãos no rosto, iniciou o que parecia ser uma corrida, mas que se mostrou uma tomada de impulso, com o qual saltou sobre o biólogo.
            Ana sentiu suas costas arderem e logo em seguida não sentiu mais o chão sob seus pés.
            Taís pensou ter visto a amiga levitar, mas logo percebeu que o mostro havia pegado Ana pelo pescoço e a levantava, deixando-a na horizontal e, num gesto muito rápido e cheio de fúria, partiu a coluna da namorada de Bruno ao meio.
            Em choque, só conseguiu se mover quando Bruno, correndo, pegou em seu braço e a forçou a se mexer.
            - Corre, Taís! Temos alguns minutos enquanto ele se alimenta da Ana!
            - Como você consegue ser tão frio, meu Deus! É a sua namorada quem está ali!
            Bruno parou bruscamente e, se virando de frente para Taís, segurando-a pelos braços, disse num tom de voz sussurrante, porém cheio de fúria e desespero:
            - E você quer que eu faça o quê, hein? Que eu volte lá e diga “seu monstro, essa é minha namorada, pode larga-la?”. Por favor, Taís! Seja realista! Pedro e Ana estão mortos e nós vamos estar também se continuarmos aqui! Se você quer ficar e fazer um velório para eles, problema é seu. Só que eles já não vivem mais! Mas eu quero viver! E se você quer também, tem que começar a correr agora, já!
            Antes que Taís pudesse racionar qualquer resposta, Bruno percebeu que o monstro descartava o corpo de Ana – dessa vez levou menos tempo ocupado com o corpo do que ficou com Pedro – e olhava em sua direção.
            - Taís, corre! Se você quer viver, corre!
            Soltou os braços de Taís e saiu em disparada, iluminando o caminho com a lanterna.
            Bruno notou que os trilhos começavam a fazer uma curva suave à esquerda. Imaginava se estaria se aproximando da saída. Taís vinha logo atrás.
            Ao concluir a curva, o choque. Uma rocha bloqueava o caminho.
            Sem saber se o monstro já os alcançava, Bruno buscou com a luz do farolete uma passagem por debaixo da rocha. Assim que Taís, ofegante e chorosa, parou ao seu lado, ele visualizou um buraco. A tensão do momento não permitia avaliar de forma minuciosa se o vão era suficiente para que passassem, um a um, rastejando. Tirou a mochila das costas, deixando-a cair no chão.
            - Bruno! É ele! Ele vai nos matar! Meu Deus!
            Imediatamente, Bruno se atirou ao chão, encaixou a parte traseira da lanterna na boca e rastejou pelo vão debaixo da rocha. Para sua surpresa, o espaço era suficiente para que passasse sem dificuldades. Já do outro lado, Bruno virou de frente para o buraco, com a lanterna na mão e gritou para que Taís passasse.
            Por conta do desespero, da ânsia pela fuga, Taís esqueceu de tirar a mochila das costas quando se jogou ao chão e iniciou a passagem pelo buraco. Entalou. Não conseguia avançar nem retroceder.
            - Vamos, segure na minha mão!
            - Eu não alcanço! Estou presa! Bruno, me ajuda!
            - Tente alcançar e minha mão que eu puxo você!
            - Não consigo! Meu Deus, me ajuda! Bruno!
            Ao se deitar no chão e apontar a lanterna para onde estava Taís, viu a expressão de horror da garota, um misto de medo, desespero e, logo em seguida, dor. A besta havia agarrado Tais, puxando-a pelas pernas, dividindo o corpo já morto em dois.
            Por um instante, apesar de todo o horror que viveu nos últimos minutos, ou horas, não havia como saber, Bruno se sentiu seguro. Embora não soubesse como sairia dali, tampouco se havia uma saída, sentou-se e percebeu que aquela rocha era sua defesa, sua barreira contra aquela criatura monstruosa, a respeito da qual ele não sabia o que pensar.
            Encostado na parede do túnel, ofegante, com dores por todo o corpo, sedento, Bruno fechou os olhos, como uma tentativa de resgatar um pouco de forças para tentar seguir adiante. Ouvia do outro lado aquela respiração assustadora, a qual ele sabia que jamais o deixaria em paz, escapando ele ou não daquele lugar.
            Ao checar por passagens por baixo da rocha que bloqueava o caminho, Bruno não percebeu que ela não alcançava o teto. Foi por esse espaço que a besta venceu o bloqueio. Foi por esse espaço que a fera saltou sobre o biólogo, pousando sobre seu abdômen.
Foi por esse espaço que o fim chegou para Bruno.